Experimental


Sobre as conquistas

A passos largos, não se anda.
Ser tartaruga é o que há.
Mas nem sempre é possível.
Na maioria das vezes, o que se é de verdade é caranguejo.
Não saber qual o sentido tomar, também não é o pior.
O pior mesmo é andar para trás, quando se está quase chegando.
Por isso, o menino da praia que comanda e direciona o caranguejo é essencial.
Não somente para direcionar, mas também para evitar um pescador, ou um faminto, ou mesmo o movimento do mar na praia, que tudo carrega.
Espero que a vontade e a energia deste menino persistam no tempo.
O segredo disso tudo? Paciência.



Escrito por Diogo da Silva às 05h06
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Sentir infinito
dentro duma caixa,
como pode?

Como pode um retrato
- instante do tempo -,
seus olhos a fixarem nos meus 
E eu, "ser", rocha, a inflar
como um balão,
como pode?

Como pode meu corpo
abrigar tamanho paradoxo:
ser matéria, chão,
E dissipar no ar, quando encontra seus olhos.

Pode?



Escrito por Diogo da Silva às 03h13
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I know baby, I know!

Que vou ter que esperar tanto tempo

Que o mundo não estava preparado

Que eu cheguei, já tendo que lutar

I know baby, I know!

Que depois de tanta loucura

Me debato com meu próprio fracasso

No silencio de minha boca e do caos

A solidão governa sozinha

E debaixo do cal minha vontade

Explícita nos meus nervos de aço

A sustentar tanto querer.

Eu sou um ser que se cala

Me revelando a todo o momento

Querendo ser encontrado

Por isso agüento

Estes olhos de esperança

Que pode brigar por tratados

Mas não realiza um bom bocado

De um amor pra’se viver.

I know baby. I know.

 



Escrito por Diogo da Silva às 16h15
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Em toda juventude há muita virilha. Mucosas salivam de vontade e palpitam mais que o coração. São nervos que em suas ardências, escondidos atrás dos pubianos, guardam lúbricas ou eretas uma simples vontade de “comer” o mundo. E as nádegas belas, censuradas quebram pelas ruas.

            _ O que há entre elas? Pergunta meu coração. Haverá de me permitir as bundas viris como todas faziam quando infantis? Haverá de quebrar essa lógica grega?

            E enquanto isso, fétidas são as ruas. Latejam os telhados e ganem os cães. Um alvoroço é visto ao meio dia. Existem cartazes de protesto e publicidade. Mas debaixo dos jeans não se revelam os coitos.

            _ Pelo que lubrificas mais? Estão fechados os portões e as trancas das portas; também as venezianas tampam o sol. Morrerás como os outros? Em paz?



Escrito por Diogo da Silva às 10h25
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Existe em Michael Jackson algo proustiano. Existe também uma recherche; não, não uma perda! Mas sim um reencontro. Talvez por eu ser de 1985, tempo em que ele se encontrava no auge de sua carreira solo e já se firmava como “o” ídolo pop. Provavelmente na rádio distraída, naquele espaço em que eu, ainda pouco me diferenciava de um macaco, talvez pelo polegar opositor – ali presente, eu estaria agarrado aos peitos de minha mãe a escutar “thriller”.

Mas o melhor que eu poderia supor é que, nenhuma de suas músicas me traz mais este tempo perdido do que “Ben”. Eu nunca saberei dizer quando foi a primeira vez que eu a escutei, sendo que ela foi gravada anos antes do meu nascimento, e é surpreendente como se perpetuou na trilha sonora de minha vida.

A década de 80, não foi uma época fácil. Os discos eram caros e a TV plugava a gente. Creio que como eu, a maioria dos brasileiros não tiveram vinil em casa. Lembro de ir com meu pai comprar fitas do Seu Nenê e em uma destas idas, ele voltou com uma intitulada - “Michael Jackson”. Não tínhamos o hábito de consumir música estrangeira. Ou era sertanejo, ou Raul Seixas, ou Jovem Guarda. Mas o Michael conseguiu penetrar nas caixas que eram quase memórias de meu pai, que para ele eram lembranças de um tempo esquecido. E eu olhava para os olhos dele ao escutar “Ben”, e via que ele recordava e escondia um riso no canto da boca.

Por fim, comecei a perceber que existem coisas atemporais. Músicas que trarão sempre a lembrança de um tempo bom, não importa quando foram tocadas, se foi hoje ou amanhã. Não existe lógica para recordar. Por isso trago no peito uma conspiração, a de que Michael não morreu. E eu sempre o encontrarei em um tempo redescoberto, ao escutar “Ben” e ao dançar Thriller.

 

 

 



Escrito por Diogo da Silva às 11h09
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Cara Leili

 

         Ontem assisti a um filme indicado por você. Lembra de “Y su mama tambien”? Pois é... tornei a assisti-lo. Aquela personagem me fez lembrar de ti, apesar dela se encontrar em uma situação bem diferente, que requer mais entrega do que escolha. É difícil abrirmos mão de nossas expectativas ( Já foram tantas, não?). Desistir delas é também deixar um pouco nossa ideologia sem terminar. Aquele sonho “besta” de se construir/fazer algo magnífico ou de compor aquele poema, vai sendo morto pela doravante vida que segue voraz, faminta por sonhos.

         Leili, a cada dia aprendo um pouco mais e assim também deve estar sendo com você, cai no poço da antropologia e acredito que este seria o curso de minha vida, se acaso ela houvesse me dado o poder da escolha (mas o tempo corria e eu tive pressa aos dezesseis). Talvez você me diga que ando o mesmo, cercado de expectativas com São Jorge na camiseta e uma bermuda de trevo. Aprendi que se explicar é um erro e também a ver que, o fato de eu não ter planos sempre incomodou as pessoas.

         Eu sempre tive um plano: ser feliz! E aprendi a ganhar a felicidade aos poucos. Hoje olho para traz e menos sufocado pela ansiedade, posso dizer que fui feliz e sou, por isso me entrego a vida, cheio de moral e pudor, pois eu sou assim ( Mas tento enganá-los e as vezes consigo).

         Das tolas expectativas, hoje eu faço café e me sinto premiado na loteria, depois eu agradeço a esse ser colossal que me deu a possibilidade de existir. Cultivo o hábito de conversar e sorrir e às vezes eu tenho medo da brevidade do tempo, que ele possa me impossibilitar de ver minha sobrinha moça ou de ouvir mais dez vezes aquela música que no momento eu tanto gosto.

         As escolhas pouco faz a diferença, no final pouco importa. O importante é que ocorra a mudança. Elas são um modo para que isso aconteça no plano ideal (no mundo das idéias!). Passamos quase a vida inteira tentando nos desculpar, por ser assim ou não o ser, e no final não existi erro.

         Leili, tudo vai dar certo! Aproveite o momento, faça ritos e comemore o fato de existir!

 


           



Escrito por Diogo da Silva às 12h04
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Poemas Gnósticos, envoltos de inconsciência (neurastenia) e poucas palavras para os Deuses.

 

01

Em noites de vigília

Onde a tormenta insônia

Seca minhas retinas de lucidez

Eu levanto junto com o sol

(e penso nos deuses, pois não há para eles, mistério no amanhecer)

É estranho e nítido – o contraste:

Entre a plasticidade da noite

E as formas que as coisas tem ao despertar.

Para os deuses não há contraste!

 

(Por ser humano, apenas contemplo.)

 

02

Há um comércio de sutilezas

Feito entre donas de casas.

Onde as medidas são secretas,

Ditas de boticário.

E as panelas possuem o poder

De viajar entre as vizinhanças;

E voltarem sempre cheias de quitandas.

(e outras frutas de sabores bem excêntricos, que não foram feitas por deus, são sutilezas humanas em que nego dizer o nome)

 

03

O que nos resta em um dia de funeral

É um gosto de café após o enterro.

Um abraço desconhecido no meio das recordações

Uma vista esplendorosa que aguce nossa sensibilidade

Para que seja confundido – o desespero e a vontade

Da vida e da Morte.



Escrito por Diogo da Silva às 10h41
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Sempre na tentativa. Texto um pouco inspirado no modo de narrar de Virgínia, sem nenhum objetivo de chegar aos pés, apenas treino, a história morreu como tantas outras, mas está ai.... foram trechos de um sonho.

 

A impressão. A mesma daquele dia, um frêmito ar banhava o alpendre. Estaria mais fresco o dia pela limpeza? Ou talvez pela ocasião? Pelo alívio que somente o tempo traz?

Este dia passado que agora tombava o instante em nada, em recordação, passava de frescor e trincava-lhe os ossos (era desaconchegante). Nunca esqueceria o momento abrupto da discórdia. O choque. A mudança. Parecia enfim tão irreal! Dos momentos passados ficou uma impressão, breve como um sopro. A medida dos doces já eram mais exatas, e grande parte de suas lembranças eram agora compotas e um relicário de gostos, em forma de bentinho pendurado no pescoço. Aprendera com o paladar a identificar pessoas.

Pois foi assim.” , afirmou convicta de aceitar, “Tinha que ser.”, reafirma certeira, enquanto as dúvidas sentadas sobre a mesa, potes, tanque: cercavam-na. “Poderia ser diferente...”, resiste em pensamentos. O vento oscila fazendo com que o João-de-barro menei, do galho para sua casa, no abacateiro. Assim ela, sorrateira como uma “passarinha”, abrigou-se naquilo que deu nome de lar.

O vento cerra a porta.

A natureza deveria ser viril”, afirma. Desde aquele dia, a vida parece menos confiável e o tempo não ajudou. Pensou no passarinho, que agora protegido, “Quantas fêmeas teriam sido enclausuradas por traição?”, mas ela não traíra, pensando hoje, mesmo se houvesse, ninguém teria o direito de a excluir. Mas a própria casa era um mundo, que ela nunca tivera antes, o mundo dela. Não precisava que entendessem, não se entende solidão quando se ignora a vida. Desde o momento em que sua filha deixou a casa, a solidão companheira circundava dúvidas em que ela nunca tivera tempo de pensar. Sempre tão asfixiada nos figos, morangas, laranjas, a tudo que pudesse extrair uma essência, que pudesse ter um valor. Mas ela nunca tivera o seu, o seu valor, esquecera em algum pote a vaidade, mas sua imagem refletia agora no vidro da estante (ela tocou a face, atrás os potes). “Teria sido melhor!”



Escrito por Diogo da Silva às 12h51
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“Modos na Mesa”!

 

A criança molha o pão francês

Na caneca cheia de chá de cravo.

Enquanto sentados na mesa

Audaciosos no silêncio,

Ambos marido e mulher,

Minuciosamente tocam a porcelana quente,

E cheios de “delicatese” passam manteiga no pão.

 

A maravilhosa criança derrama chá

Num corajoso silêncio o pai repreende.

A criança não entende, mais agüenta calada.

A porcelana quente que pinta de vermelho

A palma da mão que sustenta toda “etiqueta” da sociedade.



Escrito por Diogo da Silva às 00h13
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O Armário, o Cristão e o Diabo.

Há duas portas que se abrem
E duas maçanetas do lado de fora.
Tateio no escuro interior,
A minha bagunça.
Ouço a voz de meu Diabo, ainda pequeno.
Fruto da última erva daninha que consegui,
Arriscando um ato de caridade.
Um velho cristão, vivendo a catar,
Migalhas de traças.
Às vezes, peço ao meu Diabo, Uma Maldade!,
Para que acenda minha ira.
Solto fogo pelas ventas,
A porta se abre por uns segundos e eu posso sonhar
- pois sei, ainda existem cores!

Eu tenho vinte e poucos anos, um Armário, um velho Cristão e um pequeno Diabo.

E todos os dias, eu peço ao meu Diabo que seja mau.
Para que eu possa sentir um único filete de raio de sol
E eu aspiro a luz - por segundos.
Cultivo as daninhas no armário,
Com as fezes do meu velho Cristão.
Espero atento sua morte,
Para o dia de ação de graças.
Irei lavar o armário com água e sabão.
A porta emperrará,
E serei autor de infanticídio,
Matando meu pequeno Diabo.


Escrito por Diogo da Silva às 20h29
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Às vezes falo em dialeto.

E o som que se arrasta parece não agradar.

Minha voz tem genitália - uma que nunca existiu.

Nasal e trancada como uma ostra

Parece bombardear ao meu holocausto interior.

E quando falo, preenche-me um eco,

Como a sustentar partes de mim.

Ela tem a cor da liberdade,

E quando falo a sensibilidade pousa no ar.

Tem o tom melancolico como a de um sertanejo

A apartar os "erres".

E quando falo, pareço castrar um próximo ato viril.


Escrito por Diogo da Silva às 19h24
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Vãos

Há espaços entre coisas e coisas.
Que chamo de vãos.
É o que há – entre a cama e o guarda-roupa.
É o que há – entre o muro e a parede da casa.
Entre estes há, apenas aos olhos, disposição.

Há espaços entre coisas e pessoas.
Que identifico como vãos.
É o que separa – a criança da bola.
É o que separa – a mulher do espelho.
E estes são de caráter material.

Há espaços entre pessoas e pessoas.
Que friamente chamo de vãos.
e o que separa é o preconceito.
E estes, querendo ou não, são de caráter puramente humano.



Escrito por Diogo da Silva às 07h03
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O dia.

 

 

 

Quando me apetece amanhecer,

Antes do dia e das formas.

Sinto um ar de desespero

- Frêmito-

Como em outros não senti.

E noto que o céu que nos cobre

Já não é o mesmo.

Ele guarda qualquer coisa de estranho

E parece inventar algum sentimento novo.

Nos abriga indiferentemente,

Pelo poder de ser criador.

Ainda de madrugada,

Sinto o conforto de ser criatura,

Em gélidas porcelanas

Que no sereno expostas:

Sabem tudo da vida como ciganas,

E a lista das pessoas ainda não mortas 



Escrito por Diogo da Silva às 06h50
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O vidente

 

 

Para minha cartomante Sue...

 

 

No cemitério de Elefantes
adocicadamente.
e com atitudes visíveis,
destacará o Guru.

E a lareira, suspenderá, nas brasas onde
estoura o carvão,
a fumaça alucinante das almas nobres.

E isso será bom!


A sensibilidade como
uma doença, tremerá
teu corpo, já frágil de existir.

E tu soluçarás três
vezes seguidas.
E tua vida acalentarás
no “Alentejo” a doce,
doce morte.




Escrito por Diogo Matias às 11h08
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Nas tardes de domingo

Depois de uma noite de sabado ensolarada de diversão.

Descia em nós, uma melancolia no marasmo.

A gente fazia subir um cheiro de sangue e cebola,

e se embebecia de cevada.

Pairava no ar, uma tristeza absoluta.

Mas o diferente é que:

a gente tinha fé,

... e esperava menos carnificina, na segunda .

Talvez, ao menos, um placebo,

que a carne fosse feita na cozinha, por outro alguém.

Pra'gente poder comer em paz, sem ser carrasco.

Pra'gente poder pular carnaval em um fevereiro próximo,

fora do juqueri.


_ Eu disse meu bem, a vida é linda!



Escrito por Diogo Matias às 16h54
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