Experimental


Existe em Michael Jackson algo proustiano. Existe também uma recherche; não, não uma perda! Mas sim um reencontro. Talvez por eu ser de 1985, tempo em que ele se encontrava no auge de sua carreira solo e já se firmava como “o” ídolo pop. Provavelmente na rádio distraída, naquele espaço em que eu, ainda pouco me diferenciava de um macaco, talvez pelo polegar opositor – ali presente, eu estaria agarrado aos peitos de minha mãe a escutar “thriller”.

Mas o melhor que eu poderia supor é que, nenhuma de suas músicas me traz mais este tempo perdido do que “Ben”. Eu nunca saberei dizer quando foi a primeira vez que eu a escutei, sendo que ela foi gravada anos antes do meu nascimento, e é surpreendente como se perpetuou na trilha sonora de minha vida.

A década de 80, não foi uma época fácil. Os discos eram caros e a TV plugava a gente. Creio que como eu, a maioria dos brasileiros não tiveram vinil em casa. Lembro de ir com meu pai comprar fitas do Seu Nenê e em uma destas idas, ele voltou com uma intitulada - “Michael Jackson”. Não tínhamos o hábito de consumir música estrangeira. Ou era sertanejo, ou Raul Seixas, ou Jovem Guarda. Mas o Michael conseguiu penetrar nas caixas que eram quase memórias de meu pai, que para ele eram lembranças de um tempo esquecido. E eu olhava para os olhos dele ao escutar “Ben”, e via que ele recordava e escondia um riso no canto da boca.

Por fim, comecei a perceber que existem coisas atemporais. Músicas que trarão sempre a lembrança de um tempo bom, não importa quando foram tocadas, se foi hoje ou amanhã. Não existe lógica para recordar. Por isso trago no peito uma conspiração, a de que Michael não morreu. E eu sempre o encontrarei em um tempo redescoberto, ao escutar “Ben” e ao dançar Thriller.

 

 

 



Escrito por Diogo da Silva às 11h09
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Cara Leili

 

         Ontem assisti a um filme indicado por você. Lembra de “Y su mama tambien”? Pois é... tornei a assisti-lo. Aquela personagem me fez lembrar de ti, apesar dela se encontrar em uma situação bem diferente, que requer mais entrega do que escolha. É difícil abrirmos mão de nossas expectativas ( Já foram tantas, não?). Desistir delas é também deixar um pouco nossa ideologia sem terminar. Aquele sonho “besta” de se construir/fazer algo magnífico ou de compor aquele poema, vai sendo morto pela doravante vida que segue voraz, faminta por sonhos.

         Leili, a cada dia aprendo um pouco mais e assim também deve estar sendo com você, cai no poço da antropologia e acredito que este seria o curso de minha vida, se acaso ela houvesse me dado o poder da escolha (mas o tempo corria e eu tive pressa aos dezesseis). Talvez você me diga que ando o mesmo, cercado de expectativas com São Jorge na camiseta e uma bermuda de trevo. Aprendi que se explicar é um erro e também a ver que, o fato de eu não ter planos sempre incomodou as pessoas.

         Eu sempre tive um plano: ser feliz! E aprendi a ganhar a felicidade aos poucos. Hoje olho para traz e menos sufocado pela ansiedade, posso dizer que fui feliz e sou, por isso me entrego a vida, cheio de moral e pudor, pois eu sou assim ( Mas tento enganá-los e as vezes consigo).

         Das tolas expectativas, hoje eu faço café e me sinto premiado na loteria, depois eu agradeço a esse ser colossal que me deu a possibilidade de existir. Cultivo o hábito de conversar e sorrir e às vezes eu tenho medo da brevidade do tempo, que ele possa me impossibilitar de ver minha sobrinha moça ou de ouvir mais dez vezes aquela música que no momento eu tanto gosto.

         As escolhas pouco faz a diferença, no final pouco importa. O importante é que ocorra a mudança. Elas são um modo para que isso aconteça no plano ideal (no mundo das idéias!). Passamos quase a vida inteira tentando nos desculpar, por ser assim ou não o ser, e no final não existi erro.

         Leili, tudo vai dar certo! Aproveite o momento, faça ritos e comemore o fato de existir!

 


           



Escrito por Diogo da Silva às 12h04
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